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Terça-feira, Abril 21, 2009

 

Anna Mariani




PÉ DIREITO



Alguma coisa é antes
que não o chão

poeira no faixo da luz da janela

alguma coisa é seus pelos do braço e das pernas,
alguma coisa é ontem

tinta de caneta
pé direito alto
olhar

alguma coisa é bebida forte
corpo estendido no lençol

Luiz melodia de manhãzinha e feira e ressaca colorida
Caneca no pão

Casco de navio
Casco de vidro
Casco de patada, longa e fria, azulejo azul
Banheiro antigo


Alguma coisa são suas mãos
Alguma coisa é simples feito a voz num quarto vazio

Botucatu escorrendo em chuva
na esquina da padaria vi um crime e todos os dígitos nos pingos

Seurat pontilha os finais da tarde


Genet do meu lado se esquivando de um bêbado e suas flechas
Cupidos degladiam com gárgulas insolentes

Sapato de couro, calça de linho, manga puída

Nos butecos das tardes de segunda chove lágrimas de algum deus sem medidas



Fao/09




posted by FAO CARREIRA 7:35 PM

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Segunda-feira, Abril 13, 2009

 

MAIS PERTO


uma forma de sentir você mais perto


certo que vai chover lá fora, a tempestade se armando com trovões pra
assustar os homens da terra.
Me sinto só.

não pense que é tristeza, é só solidão, a que Maria Rilke se referia, quanto mais perto
de mim eu a sinto, a solidão, mais vejo os outros e a mim com clareza.

e eu vejo você doce e terna, descobri que te amo em um desses momentos, quando não
se espera o enlace da vida, tornando o sonho suspenso em
dia a dia

danço os dias
lentos
deito na minha cama de solteiro e penso em você

com verdadeira saudades


te amo


fao/07-9




posted by FAO CARREIRA 1:00 PM

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fao/08



JOELHO DOS PNGOS MOLHADOS
capitulo - III



E ela levava consigo uma blusinha, cobrindo o pequeno corpo, mudando o modo do mundo um pouco,
em volta, bem pouco, entre as volutas do ar, ainda havia o cheiro de vingança e traição, traços, quase
imperceptíveis de perfume, perecível,
barato?

E no cessar do vento a chuva ruída cinzenta pingando, no cachorro dos olhos de mofo. E vinagre e sal
e braços e bagos enlaçados de adeus. Nos gigantes olhos desse desgosto sem queda.

deus.

Escovou os dentes seguindo o rabo da lua, procurando frestas nas juntas, foi dormir, como se dormir
fosse ato comum, simples intervalo na escuridão, quando tudo que insiste repousa, e a mentira é
uma cor que incide.
E murcha.
Espaço vago na solidão.
Depois.

Sol solar.

Às vezes há sujeira embaixo do armário, é o que viceja a preguiça alheia, doridas em toalhas
de papel. A vassoura não alcança, uma mentira nutrida pela idéia.

A boca.O suficiente pra mastigar crocodilos, a pele é, adjacência de outras tardes sem sol.
A janela de cubos, ao quadrado o soslaio se antecipa, o copo deitado na fronha, o criado mudo.
Sempre.

Trajetória do mastigar.
Arrombo de frases, das fases mornas, perito em desmentir, simular um atraso.
Quando se percebia no embaraço dos lábios a saliva grossa, o embargo dos olhos, dele.
Afogando-se freqüentemente no raso, costume de sair com asas na gola.
Me amedronto e vislumbro criando o quadro certeiro. Resolvido, do recheio mais doce, o ganha
pão do pobre e insone padeiro. Creme. O gorrinho branco.De algodão leva o afago da esposa e
esconde caspas. Não há mais nojo, nunca ouve, ouve agora, de dia de noite, os pássaros noturnos.

As músicas.

As ranhuras do elevador
ensaboadas as mãos cirúrgicas, nosso senhor.
Queda, pois o prego não suporta o peso da moldura.

Da janela ao sem grama, o que emana fende, talhe,
é a listra em que o sol insiste e brilha em níquel, baila a imagem,
qualquer das Marias.

Do pescoço ao osso, o laço parco a guisa da maré, a vida de ré,
da cor da canela que resiste.

Leve. Leva.
Creme dental. Pinta na testa do Hare.

Nas coberturas do centro, da tinta do cabelo que cheira e chispa a merda e amoníaco.
A mesma cor.
Púbis insone e é, pungente, redentor.

Léguas, lâmpadas de mercúrio, é cerveja nos punhos sujos.
Léguas dos isqueiros, uma cama de solteiro pra você
dormir em cima de mim.Costureira, deposto o que é fumaça,
aos flancos e barrancos exasperada, costumeira.
Tece um sonho sem solidão.

Pendurado num sonho sem escada
Eu tenho medo das marcas
Da estranha ginástica do mundo

O que sobrou pra ti, a porra, a sombra dos jasmins na ferrugem da lata.


Enviesado seu olhar de caramelo.
Alvenaria noturna.
Morder unhas polegar o resto da blusa a poeira doa altar.
Entro na rota de colisão, entre por essa porta e a parede, o dedo.

Os anjos de pêra atravessam a rua distraídos munidos de hóstias de um ocre quase febril
se não fossem farinha, o mesmo saco, o saco de um santo esquálido, em um frasco o úmido
da confusão e fuligem e amenos fogões, ao menos no pote tem frutas, mas estão quase podres,
natureza morta desde sempre, o que se espera.O que você espera? Ester, dos olhos largos.

Alem dos vergões abaixo dos olhos, lilases.
Você me pedia tapas na cara, te deixar coradinha.
Foi quando me feriu com aquela merda que comprou no um e noventa e nove, rasgando aos
pedaços a malha quente do meu peito.

- Coração.

O mínimo do lirismo já vem áspero, em cacos, estilhaçados lábios sempre rochosos às cegas,
no escuro o vacilo, a flor de sabão é veloz e a alegria é palavra feminina.

O que pé vertigem ruga.
O que é sangue suga.
É esta sua sede lépida que oscila, mais um beijo escondido a sombra da cortina e o disparate
na rádio AM Glórinha.

Tem lá seus contorcionismos, sapataria sobre o mesquinho, é o milímetro das toneladas.

- Coração.






fao/06-07
®



posted by FAO CARREIRA 12:58 PM

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fao/08





JOELHO DOS PINGOS MOLHADOS
capítulo - II -


A face mais linda imaginada.

Eu olhei por cima dos ombros no canto do quarto aqueles sapatos marrentos, eu tive dó,
pena, eu tive verdadeira tristeza, aqueles sapatos bolorentos eram tão meus quanto os seus.

Encharcados, amiúde.

Os filósofos todos errados, nos meus momentos.
Perenes.

Mas.

Era preciso estar mais próximo, pra sentir o hálito, captar no estalo as diferenças, esqueça,
esqueça as tardias meninas, é preciso ir ao agora, o precioso do agora, no que se diz sem nome.
Ester.
Ainda mais que uma.

Os filósofos gregos todos corados, em seus momentos...

Algo que fosse, como o estalo dos dedos, menina, ou as luas deitadas de bruços sem cortinas.
Pra ver da retina à rotina, os dedos macios passando na virilha moça dos olhos apertados.

Mas.

- Tenha calma meu bem, não se vá, há tanto...Você pode esperar.Você pode.

- Mastiga seu chicletes com calma, é menta, né? Desvia os olhos das cinzas.
Ás vezes é impossível chegar perto de ti.É choroso o brilhante, é igual ao leite na soleira,
o solar na noite inteira.

Com o corpo morfino, é, lasca de prenha, é quase aprendiz, confortável como o recostar do
vigilante noturno no muro, que suga o acidente nas frestas dos dentes, em extase e quase feliz.

A única possibilidade da estrada, pele pra motor. E flor de plástico que se impõe em ríspido
lamento, vestígio pra isopor.

E super-nova, trompa e violão, e nova na mesma rotina, acorda, acorda. Limpa a velha botina no
projeto da esquadria.
O álcool não pode lhe apagar.
Da memória vulgar,...é só saudade.

Ou esqueça, tome a pelo avesso, reconheça a penúria na vontade, segue as listras, milhazes,
milhares. Não vomite a simples queixa, alumínio no que pende dos dentes, o sulco na virtude,
no que não desvencilha.

Algodão oscila no enquanto.
a manteiga no pão.

Então se foi, sofre sobre o tapete e os segundos, o que soaria estranho não fosse além do bocejo
um gesto, os passos lentos, o uniforme azul no ensejo nu.
E no tom da pele, o castanho traço, o resquício do almoço tardio, quase janta, brota uma planta,
nada, nada na palma da mão, além do passe de ônibus, os peixinhos na fronha, a anágua alagada.

- Não adianta.Esther dos olhos de cravos, não adiante o suspiro pra longe das montanhas,
da nossa varanda, do sabonete em que lavas as partes alvas, em fogo.

Era pra deitar, se distribuir, abrir-se em cor, tão leve tão só, qual o pranto, feito a calmaria em prato
fundo, as coisas que caem do céu sem notarmos. Devagar. Vãos.

Revirando Ester pelo avesso.

Dos volumes ao meio.
Dos seus seios.

O anzol negro mesmo brilha, cintila, é o avante dos rastros, é o piano mole, a tecladura insólita,
bate com força a porta e depois pede perdão, é a partícula mínima do lastro, onde a vela fumega
em chamas que fogem verdes, elásticas.

- Eu sei, você gostava tanto da minha dancinha dissimulada, feliz...
Te faria sorrir de novo pra te encher depois seu rosto de espanto, doce.

Ela fingiu que não ouviu, e emendou.
- A sopa da última noite estava ótima, uma delicia.Ela disse sem titubear, brilhando um resto de
lágrima dos olhos, o sorriso dos dentes, como se pudessem vir de outro lugar, o algo que paira
leve no ar, confidente, do rosto que é só leviano, montanhoso na planície dos ombros, belo e pronto.
Pra um beijo.

A sua predileção.Confetes, ora ocres, ora azuis, ora lívidos. Cotovelares.
digo gastos, dobradinhos pisoteados por tantos pares solidões de salões.

Então quando infantil tinha lá seus tubos de ensaio e misturas reservadas, injeções na terra,
nas veias imaginarias e então era velho e exato e tinha lá seus ensaios e misturas quase
concretas, esconderijo de papelão e veias azuis-sombra-de-mão.

Ora uma fruta perdida no esqueleto, ora uma fruta escondida, esguelha e vermelha de Ticiano.
Num arbusto, corruptela de medo, o que branda o gozo do relevo, é lã.

Adorno o que é respaldo, edredom noite adentro.Do silêncio aos pelos encaracolados.
Joelho dos pingos molhados.

desarranjo de flor
estrado da cama.

estende o varal, lilás é do outro lado, sua língua
de um outro açúcar.

inevitável.


fao/06-07
®




posted by FAO CARREIRA 12:55 PM

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fao/08



JOELHO DOS PINGOS MOLHADOS
capítulo - I -


Varre a casa de três a quatro vezes por dia, eu posso ver, sutil, da fresta o resto de alegria, de cócoras,
arregaçado o vestido, esperando um pardal novo a cada centésimo do chão que esfria.
Ilustração de feira.
Petúnias na folhinha, o que era antes do meio, do raio que o parta, o dia, parcial sol, da janela o esgar,
fome.As migalhas misturadas ao pó pro quintal.
Alimenta um amor.
Sustenta um pouco as galinhas.
É fácil, quando não insignificante, remover montanhas estranhas, um amontoado de montanhas, de pele,
pó, planta ou de banha; os musgos, a palavra certa, é fácil, o sorriso serenava aos poucos, é difícil como
dedilhar arabescos, aos poucos, na vitrola o acento certo raspa perto donde formiga um pouco e a rosa
goza.
Digo, a flor.

Branca apodrecida sobre o avental, é ventania.

Veja bem, livre e sozinho feito um mosquito sobre o varal, vôo, lotação de janotas, encostado nas lajotas,
suas galochas negras e úmidas, esperando o vazio.
O próximo passo pra roça. Ou estar no rancho comum cigarro cerrado na boca.
O olhar perdido na poça.


- Eu posso esperar.
Pensou no declive cabisbaixo, Antonio Pi.

Ouvindo agora as gotas pesadas no telhadinho, que cobre parte da calçada pro resto do mundo.

Tão pesado quanto o ar, tão leve como o escarrado trajeto do padre até o canto do altar, é nojo e
vergonha, é relembrança e protuberância no saiote do velho, sangue suga e sua desvairada vontade,
gêmea ao beijo que arde. Em chamas, do lado cego do muro há, avante, a juvenília.

Num lance mínimo a bituca rolou no ar, feito uma breve música.




fao/06-07
®




posted by FAO CARREIRA 12:52 PM

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fao/08





ANTEVEJO


Dentro da mesma idade
e você fechou e abriu
os olhos nesse momento

Entre o som do passarinho
a solidão anil
entre o travesseiro a voz

Antevejo

as lãminas finas da chuva
o desbunde da lua

Onde só brota

o reboque em cal

Cavalos num canteiro de jardim
deflorando
gramas plantas crisântemos brancos volutas redemoinhos terrestres
e minhas vaidades

pau duro dessa mesma

árvore

dentro dessa sua idade


fao/08
®



posted by FAO CARREIRA 12:33 PM

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